As razões para se começar uma guerra são sempre muitas. E são precisamente as mesmas que tornam a paz obrigatória e urgente.
Assumindo a posição de um viajante do futuro, Paulo Moura perscruta os caminhos que levaram a uma guerra absurda, mas que se desenha desde 1945.
Vistas do futuro, todas as guerras são absurdas.
Uma máquina fotográfica que talvez tenha pertencido a Hitler.
Uma cidade de cientistas, no meio da Sibéria, que desencadeou o fim da guerra fria.
Um banqueiro comunista.
O star-system da mafia russa.
O regresso do rei búlgaro.
A prisão do ditador sérvio, Milosevic.
Os bastidores da indústria porno húngara.
As fronteiras polacas de todos os tráficos.
O clube noturno mais ousado de Moscovo.
Um jogador de póquer em Maidan.
Reuniões secretas dos nazis ucranianos.
Oligarcas revolucionários na Crimeia.
Da Rússia à Ucrânia, passando pelas várias fronteiras físicas e culturais que dividem os verdadeiramente europeus daqueles que o não serão ainda, esta é a narrativa de uma série de viagens feitas entre 1995 e 2022. A perspetiva é a de um viajante do futuro, que se desloca para observar as raízes da discórdia, encontrar abominações, diferenças irredutíveis, ódios antigos – ideias e sentimentos pelos quais valha a pena matar e morrer.
Excerto
«Sabe-se que os regimes comunistas cometeram muitos
crimes. Mas ocorre-me muitas vezes, quando visito países que
viveram décadas sob influência marxista-leninista, que o maior
crime do chamado comunismo real não foram a opressão, os
gulags, os milhões de mortos. Foi terem-se apoderado de
alguns dos mais belos sonhos da Humanidade, para os enxovalharem.
E assim terem hipotecado o futuro, por séculos.
A Justiça, a Igualdade, a Solidariedade, são valores desprezados,
ou objeto de grande desconfiança, em todos os
territórios sobreviventes do comunismo.
Na Rússia, nos países da Europa de Leste, são muitas
vezes os cidadãos que se consideram mais progressistas, mais
sérios, mais íntegros, mais vanguardistas e mais corajosos que
tendem a simpatizar com o nacionalismo e a extrema-direita.
É esse o sórdido, imperdoável crime, o verdadeiro horror
da aventura comunista: ter-nos roubado a possibilidade de
sonhar. Por quanto tempo mais?»